kindle2ndgen

Os tablets estão aí e, com eles, o consumo de livros digitais está mais fácil e difundido do que nunca, mas isso implica na extinção do livro impresso? Faz tempo que discuto esse tema com amigos e vez por outra levanto o debate também no Twitter. Meu interesse é colocar a questão no campo da racionalidade, sem deixar que certas posturas exaltadas, muitas delas artificiais, façam tanto barulho ao ponto de não podermos analisar os detalhes interessantes da questão.

Toda vez que o assunto vem à tona, exaltam-se os moderninhos que já decretaram o fim do livro de papel e, no outro polo, uma meninada metida a cult defensora fervorosa de um fetiche pelo livro impresso, o que não significa que eles sejam, de fato, assíduos consumidores do conhecimento em lâminas de celulose ou em qualquer outra espécie de mídia.

Aqui em Fortaleza, uma recente campanha publicitária do colégio Ari de Sá reacendeu o debate, que dessa vez se deu com acentuada exaltação em ambos os fronts. O colégio espalhou pela cidade outdoors onde se lê “Tablet substitui livros” e, como era de se esperar, enfureceu a meninada metida a cult, que vê na defesa do livro de papel uma maneira de fazer pose de intelectual sem ter efetivamente que ler nada.

tablet ari de sa

Nesse caso, é preciso pontuar algumas coisas. Primeiramente, sabemos que escolas, todas elas, gostam de aparecer em suas propagandas como super conectadas, indicando que a tecnologia da informação é usada ali em todo o seu potencial para favorecer o aprendizado. Via de regra, tudo é falácia de propaganda. Talvez haja por aí alguma escola com um modelo a merecer destaque nessa área. Andei recentemente transitando nesse meio e não vi nenhuma.

Se considerarmos que um determinado colégio hipotético resolva ir além da propaganda e usar as tecnologias disponíveis para efetivamente favorecer o aprendizado, temos de convir que essa escola deverá enfrentar diversas complicações. O primeiro passo seria desenvolver um app para tablets, multiplataforma, contemplando Android e iOS, que pudesse substituir todas as apostilas. Antes de falar em tablet substituindo livros, é fundamental, e até mesmo desejável, que eles substituam as pesadas e volumosas apostilas. O meio-ambiente agradece e a coluna vertebral das crianças, também.

Não seria fantástico que o aluno pudesse, ao fazer sua matrícula numa determinada série, baixar no app da escola todas as apostilas indicadas para aquela série? Ademais, sabemos que erros de digitação são bem frequentes em apostilas impressas, o que torna um inferno resolver questões onde você tem uma equação enorme que não vai a lugar algum porque o digitador trocou um sinal. Com as apostilas atualizáveis via push, esse tipo de problema seria sanado imediatamente toda vez que um erro de digitação fosse detectado, facilitando por demais a vida de professores e alunos.

O primeiro passo seria, sem sombra de dúvida, transpor todas as apostilas para o formato. Num colégio, elas são usadas com mais frequência do que livros e muitas vezes são carregadas aos montes dentro das mochilas, detonando com a coluna vertebral das crianças. Esse esforço de digitalização das apostilas deveria vir antes de qualquer publicidade moderninha.

Um sistema push no app da apostila facilitaria também a sua complementação constante, com a inclusão de conteúdo de atualidades, com a sugestão de novas questões, etc.. Enfim, seria uma apostila dinâmica, sempre atualizada e atualizável, com incontáveis vantagens sobre o calhamaço de papel assassino de árvores e destruidor de colunas vertebrais.

Por outro lado, temos de ponderar um outro fator: os tablets como plataforma para leitura têm sido abandonados por adultos porque eles favorecem demais a dispersão. São comuns os relatos de adultos que, após a experiência inicial de leitura com o iPad, procuraram um Kindle ou similar apenas para ler num ambiente sem tantas tentações desviando a atenção, sem Instant Messengers, sem notificações de redes sociais, etc. Se leitores adultos estão chegando a essa conclusão, agora imaginemos a bagunça quando adolescentes estiverem usando tablets para estudar. Esse será, sem dúvida, um dos maiores problemas a serem enfrentados caso esses projetos saiam dos outdoors e cheguem à vida real.

É preciso também que as pessoas abandonem a postura de profetas e de donos da verdade, larguem as exaltações “ideológicas” que usam para fazer pose de cult, mas que só faz delas um bando de babacas, e passem a discutir essas questões no plano da realidade. Os tablets estão aí, eles vão se popularizar ainda mais e serão muitíssimo utilizados para leitura. Que eles venham a substituir de vez os livros de papel, acho muitíssimo improvável, mas o que importa no fim das contas é que as pessoas leiam.

Se a redução de custos dos tablets foi definida como uma alta prioridade da administração pública no Brasil, que pelo menos se dê a esses instrumentos uma finalidade adequada. Reduzir impostos pra que a molecada possa jogar Angry Birds é causa política do Felipe Neto. Não cabe numa discussão séria.

Quanto a essa extinção de certos formatos, aposto mais na coexistência de múltiplas soluções, o que é mais interessante para o usuário, dá mais liberdade de escolha, mais possibilidade de adequação aos interesses e ocasiões. Qual deles terá mais popularidade é uma questão mais interessante para os profetas de plantão do que prever a extinção disso ou daquilo.

Com informações: O Galinheiro

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13 respostas a Tablets e livros digitais irão aposentar o bom e velho livro impresso?

  1. @caioketo disse:

    Concordo com o que você disse, mas acho que essa história de "Isso é só marketing", uma hora tem que acabar.
    Eu acho que sim, os tablets substituirão os livros nas escolas, essa parte de distração você bloquearia, os tablets seriam da escola e não do aluno (porque ninguem pagaria mensalidade para ter que comprar um tablet), entre outras maravilhas que daria pra fazer numa sala de aula com tablets. Mas como todos dizem, os livros de papel tem seu lado bom, e não vou pagar de cult, eu prefiro livro digital. Mas tem muita gente que vai continuar comprando livro em papel.

    • Caio, o problema é que, na área da educação, quando o assunto é TI, o que eles fazem geralmente não passa mesmo da propaganda. Não é comum vermos escolas fazendo um bom uso nem mesmo da web para favorecer e estimular o engajamento e o bom desempenho dos alunos.

      Quer dizer, os colégios não fizeram o dever de casa deles nem na época dos desktops, agora vêm posar de moderninhos falando em tablets.

      • @caioketo disse:

        Concordo, mas isso pra mim é culpa do pessoal de TI, de não ver o ambiente das escolas como um cliente em pontecial, se você desenvolver um ecossitema, que supra as nescessidades deles, e também que conte com algo mais, e oferecer isso nas escolas certas (particulares =D), e com um preço razoavel, acredito que possa acabar com esses problemas.

        Conhecia muita gente da parte de TI de escolas, e o pessoal eram aqueles profissionais que pra eles, tava bom daquele jeito, como o diretor não tem conhecimento para falar o que pode melhorar, ninguém mudava nada. Acredito que se alguma escola resolver mesmo utilizar uma solução assim, pode fazer uma grande diferença na escolha dos pais e assim melhorar o nível da escola.

  2. Nos colégios, o pessoal responsável pela parte de TI, o pessoal que cuida da parte da Web, geralmente é escolhido na base da indicação de camaradagem, quando não funciona na base do "sobrinho". Desse jeito, não vai. Geralmente não tem ninguém que manja de tecnologia, que tá em contato efetivo com as inovações, fazendo essas escolas avançarem nesse sentido. Aí eles pegam e metem um outdoor pra fazer de conta.

  3. @caioketo disse:

    No mais, acredito que a única área que o tablet pode mesmo acabar com o livro de papel, seria na educação, se houver investimento, e interesse.
    Já as pessoas que gostam de ler livros em casa, para entretenimento gostam do livro de papel, já estão acostumadas a isso, e acho dificil trocarem para o e-book, por várias razões, como as citadas no texto, distração, etc..

  4. Muito bom o texto. Parabéns.

  5. Achei interessante e pertinente suas considerações sobre o tema, mas sinto lhe informar que as coisas não são bem como você está pensando. Olha só. Sou o Gestor de Tecnologia do Ari de Sá e um dos idealizadores desse projeto. Acredite, não fui escolhido para essa função por camaradagem, nem muito menos, por ser sobrinho de ninguém. Até mesmo por que aqui essa é uma prática inexistente. Sou especialista, mestre e doutorando na UFC, professor da área de TI em nível superior a mais de sete anos, fora uma sólida experiência na gestão de TI em instituições de ensino. E não sou uma exceção na função, em Fortaleza temos grandes profissionais pensando sistematicamente em soluções que agreguem valor para nossas escolas/IES e auxiliem o aprendizado de nossos alunos. No case do Ari de Sá, a proposta é alterar a mídia, a forma, dos livros, especificamente, do nosso material didático e livros de leitura complementar. Como você bem pontuou, os livros continuarão a existir, evidentemente, mas agora também, disponíveis em uma nova mídia mais interativa, mais alinhada com o público que a utiliza, enfim. E aqui no Ari de Sá temos readers para as duas plataformas (Android e iOS), ou seja, qualquer dispositivo acima de 9,7 polegadas poderá ser utilizado. Esse fato foi planejado para não criar uma tendência ou predileção por marcas/modelos. Diversos outros apps como TV Ari, resolução de questões do ENEM, ITA, IME entre outros, estão sendo desenvolvidos para complementar a utilização do tablet. Novamente concordamos quando você fala sobre uma das grandes contribuições, que é a efetiva redução de peso nas costas de nossos alunos. Benefício inquestionável. Outra consideração. Quando você escreve “… o que importa no fim das contas é que as pessoas leiam” eu diria que o que importa é que as pessoas leiam livros de qualidade. E nosso material didático é de longe o melhor do norte/nordeste. Por fim, gostaria de pontuar que nossas ações e nossos projetos não são falácias, tudo que está na mídia já é realidade prática.

    • Oi Andrey. Bom você aparecer para pontuar o assunto aqui e até peço desculpas pela provocação do comentário anterior, que realmente não se aplica ao seu caso.

      Acho que o problema é que o pessoal da propaganda precisa se aproximar mais e criar mensagens que traduzam melhor o trabalho que vocês andam fazendo e evitar abordagens que gerem polêmicas. Observe que, embora eu tenha sido provocador em várias passagens, até porque essa é uma característica do "estilo" do blog, entre as reações que estão pela internet essa é uma das mais ponderadas e que menos se voltam contra a campanha em si.

      Fazendo uma "defesa" do que escrevi, que certamente desagradou e não tinha como não desagradar, o que comento, como você pode ver no texto, é o quadro geral da relação entre esse tipo de propaganda e a realidade.

      A disputa publicitária por vezes foge ao controle. Fiquei sabendo de um papo de lousa 3D, lançado por outra escola como resposta ao projeto dos tablets no Ari, aí fico pensando na viabilidade ou até mesmo na utilidade de algo assim. O melhor 3D que vi até hoje foi o do James Cameron em Avatar e não sei como aquilo poderia ser usado para fins didáticos. É algo que até mesmo pra fins de entretenimento recebe críticas bem pertinentes.

      No mais, parece que as coisas no Ari realmente estão mais avançadas do que costumamos ver nesse âmbito e tenho inclusive interesse em escrever um texto sobre o projeto, vendo-o de perto e comentando ele em si, e não a propaganda ou a discussão sobre tablets substituindo livros. Acho que ver os apps de vocês em funcionamento e ver como as coisas efetivamente estão sendo feitas, em vez de comentar a propaganda, seria até mais interessante para a temática central do blog. Se quiser entrar em contato para combinar, fico à disposição.

      Abraço.

  6. claudio disse:

    Me admira que em uma escola repleta de "educadores" se deixe uma campanha dessa passar para a população sem nenhuma reflexão crítica. Chega a ser um despropósito, trabalho com tecnologia e sempre que me vejo em apuros encontro minha salvação em bons livros (de papel com capa e tudo), a maioria das informações encontradas na Internet são passíveis de críticas, muitas vezes postadas por leigos e repletas de erros. Quem viaja pelo mundo das comunidades sabe do que estou falando. No mais o que a escola está substituindo não pode ser chamado de "livros" mas sim de uma calhamaço de apostilas… recurso bastante utilizado no ensino particular em nosso país.

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  8. João disse:

    eu estudo no ari e os tablets não serão vendidos apenas o aplicativo, para android ou ipad.

  9. Mozart disse:

    Não irá substituir enquanto o valor dos livros digitais não for acessível, não falo dos hardwares, tablets, e-readers, etc. Falo do próprio livro ou app. A diferença do livro em papel para o digital é ínfima, é só abrir o site da saraiva, por exemplo, q você verá a pequena diferença… O valor do material do colégio citado no texto, o Ari de Sá, não foge a regra… Enquanto o material em papel é 950 reais, o digital é 850 reais!! Ou seja para o aluno estudar com um tablet deve gastar no mínimo 1.850 reais (considerando 1.000 em um tablet relativamente bom)… Ou seja, será q esses R$100 compensa os custos de impressão, papel, logística, mão-de-obra?? Fica a pergunta…

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