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Worth_Dying_For___Cassette_by_Kaadu

O projeto já está engavetado e seus apoiadores lidam com o vexame da derrota, talvez ainda surpresos com o enérgico NÃO que a internet em peso uniu-se para lhes dar. SOPA, PIPA ou iniciativas assemelhadas não causam grandes surpresas. São movimentos trôpegos de uma indústria decadente e incompatível com os novos tempos. SOPA, PIPA, são grunhidos de agonia de uma besta abatida.

Esse texto é de certa forma inspirado por uma imagem que um amigo enviou hoje pelo Facebook. A foto mostra uma fita K7 do Dead Kennedys, gravação oficial do álbum “In God we trust INC.”. Nessa fita, a banda teve a espirituosa sacada de gravar todas as faixas em um lado e deixar o outro virgem, com a mensagem “Gravações caseiras estão acabando com os lucros da indústria fonográfica. Deixamos esse lado em branco para que você possa ajudar.”.

dead kennedys

Um projeto como o SOPA coloca em cena os velhos caciques das grandes gravadoras. Esses senhores já se doíam do antigo hábito de compartilhar música através de gravações em fitas cassete, coisa feita entre amigos e familiares em círculos muito restritos. Agora imaginemos o que lhes passou pela cabeça ao verem a internet surgindo como uma ameaça efetiva às suas tremendas margens de lucros.

Novos meios de vender e de comprar música

Por muito tempo, toda a discussão sobre copyright e compartilhamento de arquivos online girou em torno da crise que a dita pirataria gerava ao lesar proprietários de direitos autorais. A velha indústria bradava contra as redes P2P ao mesmo tempo em que os interessados no debate destacavam a necessidade de criação de sistemas modernos de comércio e distribuição de conteúdo.

Para renovar o comércio de música, novos sistemas de distribuição deveriam funcionar online e precisariam oferecer vantagens que atraíssem os usuários, convencendo-os a abandonar a pirataria. Não faria sentido que se oferecesse, mediante pagamento, os mesmos recursos que os sistemas de compartilhamento já ofereciam. O “algo mais” seria decisivo.

De um tempo para cá, vários sistemas que bem preenchem os ditos requisitos têm surgido. Serviços como o iTunes, da Apple, o Zune, da Microsoft, o Amazon Music Cloud e o próprio Google Music oferecem música por preço acessível com tremendas vantagens sobre o simples download de arquivos MP3.

Na opção da Amazon, por exemplo, o usuário conta com 20GB para subir seus próprios arquivos para a nuvem e pode acrescentar à coleção quantos discos quiser mediante compras digitais. Álbuns ou músicas comprados no sistema não ocupam espaço no armazenamento em nuvem e as coleções ficam acessíveis a qualquer hora, potencialmente em qualquer lugar do mundo. Todos esses serviços livram os seus clientes da preocupação com armazenamento ou com backup de suas coleções. É o fim da mídia física.

Quem pensou que tais soluções eram tudo o que a velha indústria sempre quis, seu caminho para a salvação, esteve enganado. O iTunes, por exemplo, sistema pioneiro no sentido de atrair usuários para o consumo legalizado de música digital, é visto como uma ameaça por executivos das gravadoras. Os demais serviços estão confinados ao território americano devido a normas de licenciamento de copyright.

As grandes gravadoras não veem o iTunes com bons olhos e acusam a Apple de monopolista. A questão é que, para eles, a perda de controle é pior que a pirataria. A indústria fonográfica não pode se limitar a vender música. Eles precisam atuar sobre toda a cadeia, desde a produção até o empacotamento e a distribuição, para justificar seus enormes lucros. Ademais, eles precisam ser capazes de ditar o que o povo vai ouvir, moldando o gosto musical das massas através do bombardeio publicitário e do famoso “jabá”.

music downloads

Acusam de monopolista a Apple, mas tentam conter o avanço de todos os sistemas de distribuição assemelhados e potenciais concorrentes do iTunes. Serviços de música como o da Google ou o da Amazon ficam confinados, restritos aos EUA, devido aos óbices impostos pela indústria e pelas regras de copyright. Enquanto usam projetos como o SOPA como uma espécie de “boi de piranha”, na verdade temem a modernização mais do que temem a pirataria.

Não há mais espaço para o velho modelo

A verdade é que, no novo cenário, o papel da gravadora é reduzido e não há mais como justificar a gigantesca fatia que elas sempre comeram do bolo. Temos hoje um ambiente em que a música pode ser consumida e discutida online, o que abre espaço para que artistas usem cada vez mais o poder das mídias sociais para a divulgação dos seus trabalhos. Como tudo funciona na própria internet, o que separa a divulgação da compra efetiva é um simples clique.

Pro bem ou pro mal, essa nova maneira de distribuir, divulgar e consumir música está aí. Ela pode servir para dar espaço a grandes artistas ou para consagrar a Rebecca Black numa nova tentativa, que Zeus nos proteja. O que fica fácil de se constatar é que a relevância das gravadoras não é mais aquela do modelo antigo. A distância entre o artista e o público se encurtou e, com isso, não há mais espaço para um intermediário tão ganancioso.

O que acontece com os novos modelos de negócio é que eles já surgem configurados para essa nova realidade. São criados a partir da consciência de que o lucro do intermediário tem que ser bem dosado para que o elo não se quebre, fazendo com que os consumidores voltem a preferir o download nas redes de compartilhamento. A infinita ganância do antigo modelo o levou a um beco sem saída, achatado pela pirataria e sem espaço para se inserir na modernidade.

O Brasil ainda é carente de soluções modernas para comercialização de música digital. O iTunes chegou ao país apenas recentemente, enquanto vários outros continuam ausentes. Zune, Amazon Music Cloud, Google Music, Spotify, Pandora, nada disso chega até aqui e a pirataria come solta, como parece ser da preferência das grandes gravadoras.

Por enquanto, regras arcaicas de copyright ainda sustentam o estúpido paradoxo que impõe restrições geográficas à internet. Se esse é o último sustentáculo da velha indústria, a SOPA dos seus cansados defensores vai azedar a qualquer momento.

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11 respostas a SOPA foi apenas o grunhido de uma besta abatida

  1. Que os deuses do avanço tecnológico digam amém! Enquanto geografia ainda for motivo pra eu ser discriminado (eu e todos os brasileiros e mais sei lá quantos países ) os torrent ainda vão comer soltos aqui no PC e no android que deixou as coisas ainda mais fáceis.

  2. Pryderi disse:

    O artigo, apesar de bom, é simplista. Ele baseia-se apenas nas indústrias fonográficas, donas de grandes estúdios e grandes contratos. Mas esquece das pequenas bandas. A grande indústria pode sobreviver se vc baixar música do Metallica, mas a banda iniciante, não. O percentual dele (já pequeno) será nulo se mais e mais pessoas preferirem baixar a música do que comprar. Vamos ser sinceros, somos mesquinhos. Pensamos no nosso direito de ouvir DE GRAÇA, de ver filme DE GRAÇA (o texto esqueceu de mencionar a indústria de filmes). Dizer que "no Brasil não há opção". Há, mas ninguém quer, pois artista é rico, tem casa, mansão, iate etc e eles que vão fazer shows.

    Quando o Google fez promoção no Market com aplicativos e jogos a 18 CENTAVOS de real, ainda teve gente que queria de graça. Comprei uns aplicativos e jogos e tinha gente no meu trabalho perguntando se não podia mandar do meu celular pro deles, pois não queriam pagar menos de 20 centavos. Qual é a desculpa? O Google é bilionário? As pessoas são pobres e não têm dinheiro? Mas teve pra comprar um celular. Comprassem um dumbphone. Mas não, as pessoas querem de graça. Coloquem um botão de doação aqui no Droider e me digam quantas pessoas doarão 1 real para ajudar a manter o site no ar. Ouvi defensores ardorosos do Linux usando como máximo argumento: ora, é de graça. Se as distros fossem pagas, voltariam correndo pro Windows piratão.

    O SOPA foi arquivado, mas não derrotado, haja vista a quantidade de sites fechados como o Megaupload ou que mudaram radicalmente o modo de funcionar, como o Filesonic, servindo apenas como backup pessoal.

    As regras de copyright são arcaicas? Talvez, mas garanto que seu eu pegar seus textos, à medida que vc for postando, e colocar no meu site, sem nem um link ao menos, vc não ficará feliz.

    Não há nenhum mocinho nessa história. Nenhum.

  3. Pingback: Megaupload, MegaBox e uma mega conspiração

  4. Adriano disse:

    Só acho que projetos como o SOPA vão fazer as pessoas pagarem para ter o que for imposto pelo governo e limitar o direito a informação e cultura que é direito de todos…

  5. Aldenir Luiz disse:

    Ai galera to visitando o site agora e ja gostei. Mas to aki para comentar sobre essa sopa e a pirataria. Realmente ambos os lados
    tem culpa no cartório, mas será que não ha uma forma de resolver esse problema sem que ninquém seja prejudicado? tudo tem
    jeito, basta parar pra refletir. de forma que hoje haja aplicativos grátis para todos os generos, isso pode tambem ser aplicado a
    midia. videos e musicas podem ser vendidas ou destribuidas gratiutamente basta que a busca por soberania acabe entre esses
    grandes produtores, e eles adiram a uma nova era. Só precisam se adptar.

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