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CHORUM~1

O que há de mais interessante nas mídias sociais pode também ser visto como o que existe de pior do ponto de vista cultural, qualitativo. Não fique nervoso que esse texto não pretende tratar o tema com arrogância elitista, mas apenas pontuar um aspecto negativo que surge como consequência do fato de que todos passamos a participar da mídia e de não estarmos ainda amadurecidos para isso.

Vamos começar com o clichê: qualquer um de nós produz e compartilha informação, opinião, participa da mídia online como jamais foi possível participar em qualquer outro veículo de mídia. Ao mesmo tempo, há aqueles momentos em que nos deparamos com a indagação “de onde está vindo tanto lixo?”. Que enorme rio de chorume é esse?

Temos a falsa impressão de que tudo hoje é mais burro. O humor parece mais burro. Tudo o que vemos são piadas vazias com desenhos de “memes” e os temas são auto-referentes. Alguém faz uma piada idiota e logo em seguida começa uma produção em larga escala de piadas idiotas sobre a piada idiota, apenas aproveitando os mesmos desenhos e um mote semelhante.

A música parece mais burra, o noticiário online e impresso parece burro e mal escrito. O mundo emburreceu? Calma! Talvez não…

Para entender o que gera essa sensação de estarmos mergulhados em estupidez “como nunca antes na história”, é preciso focar em alguns fatores que colaboraram para a instauração desse quadro calamitoso e ver que nem tudo está perdido.

A fama pela fama… na Internet!

A velha mídia já trabalha há bastante tempo com o conceito vazio de “celebridade”. É um conteúdo “barato”, fácil de ser produzido e que movimenta muito dinheiro alimentando o apetite das pessoas por… fofoca. Quando qualquer idiota sai de um BBB com um milhão no bolso, muitos milhões foram para o caixa da Globo sem que absolutamente nada tenha sido produzido ali. É o velho sonho alquimista de transformar qualquer merda em ouro.

A sacada do reality show é que existe gente interessada em saber da vida de “famosos” e existe gente querendo ser “famosa”. É um esquema que praticamente trabalha sozinho. Não importa do que advenha essa fama. Se você adicionar uma expectativa de fornicação nessa fórmula, não tem como falhar. O voyeurismo velado é a tara do momento.

A palavra “celebridade” não tem mais qualquer relação com sua origem. Ninguém precisa de feitos notáveis para se tornar “celebridade”. Qualquer um com potencialidades abaixo do limiar da mediocridade pode ser “célebre”. Como não poderia deixar de ser, os idiotas são os representantes mais comuns dessa nova “categoria profissional”.

Millôr Fernandes dizia que “celebridade é um idiota que aparece na TV”. O que ocorre é que, na velha mídia, alguém tinha que fazer uma triagem desses idiotas. Para ser alçado à fama, o sujeito precisava ser selecionado por alguém, mesmo que para uma fama de pequena duração.

A internet coloca esse grande sonho de se tornar um idiota famoso ao alcance de todos. Não que todos devam alcançá-lo, mas todos podem passar o dia inteiro tentando. É aí que está a inesgotável fonte de onde brota o chorume das mídias sociais. Tornar-se uma “web celebridade” se torna projeto de vida de muita gente.

Colocando o seu chorume em destaque

A partir do momento em que alguém escolhe, como projeto de vida, ser “famoso na internet”, é preciso de algum treinamento e aprendizado para isso. Mesmo que empiricamente, uma das primeiras regras aprendidas é que o seu chorume deve ser produzido continua e abundantemente.

Não é atoa que o Klout pontua alto quem envia mensagens pelo Twitter sem parar, num ritmo frenético e insuportável. Se a sua “audiência” é pouco crítica e aguenta (ou na verdade até curte) aquele besteirol incessante, é claro que a sua visibilidade na rede é maior.

Se a lógica da coisa é justamente “aparecer por aparecer”. Não é o algoritmo do Klout que está errado. Ele reproduz fielmente o funcionamento das mídias sociais no seu momento atual.

Outro exemplo sintomático é o da mudança no algoritmo de indexação do Google para a super valorização do chamado “fresh content”, conteúdo recém produzido.  O sistema favorece sites com ritmo frenético de postagens. De repente, o que é produzido em larga escala passou a ser tomado pelo algoritmo como mais “relevante”.

O critério da produção frenética, hoje, prevalece sobre outros que seriam melhores indicativos de relevância, inclusive sobre alguns que já foram usados no passado. O sistema precisa se transformar continuamente para não ser manjado e manipulado por técnicas de SEO e, com isso, a adoção de novos indicativos de “relevância” visa, muitas vezes, a bloquear o efeito dos “macetes”, mesmo que os novos critérios não sejam melhores que os usados anteriormente.

O problema é que até mesmo grandes portais precisam se adaptar ao ritmo de produção frenética de conteúdo para que não percam pontos de “relevância” segundo os critérios do Google, e é por isso que lemos tanta asneira na internet. Nessa linha temática de tecnologia, então, sai de baixo.

A impressão de que o lixo tomou conta de tudo

De repente você tem a impressão de que a internet “piorou”, de que ninguém mais produz nada de interessante, de que os sites inteligentes desapareceram. Na verdade estão quase todos todos lá, na mesma URL que você usava para visitá-los. A sua forma de interagir com a rede foi que mudou.

Lembra daquele tempo em que você tinha uma coleção de “Favoritos” no navegador, de sites com bom conteúdo que valiam ser visitados com certa frequência, ao mesmo tempo em que o seu e-mail era frequentemente entulhado com mensagens daquele seu amigo que só mandava pornografia ou da sua tia que mandava arquivos de Power Point com mensagens religiosas?

A maneira de usar a internet nessa época de explosão de redes sociais fez com que você, inconscientemente, abandonasse aqueles seus favoritos para dar maior relevância ao que outras pessoas enviam para você.

O chorume que escorre da sua timeline segue, basicamente, a mesma lógica do lixão que entulhava sua caixa de e-mail. Só piorou mesmo porque isso passou a ser feito, muitas vezes, por gente que encara a produção desse lixo como uma profissão, como um caminho para atingir a meta de se tornar uma “web celebridade”.

Há quem empine o nariz e se diga superior e imune a isso tudo porque “escolhe muito bem a quem seguir nas redes”, mas o chorume é tão volumoso que, não há como negar, acaba respingando até no mais seletivo dos usuários.

Por outro lado, aqueles mesmos sites que estavam nos seus favoritos continuam lá. Muitos deles resistiram bravamente à lógica da visibilidade a qualquer custo e continuam produzindo ótimo conteúdo, mas você passa muito tempo acessando o besteirol que os outros compartilham e esquece de usar sua própria vontade para navegar na rede.

A impressão de que estamos afundados num aterro sanitário de lixo digital é, em parte, uma falsa impressão. Basta mudar de paradigma, dar mais valor a um bom RSS Feed, a um Google Reader bem organizado, à sua seleção no Pulse News, e parar de ser tão passivo nos seus hábitos de navegação. Selecionar seus contatos nas redes sociais também é importante, mas nem a mais bem selecionada lista de contatos está imune ao chorume.

Reciclável e não reciclável nesse lixão

Aos poucos, acredito que o estímulo dado pelo mercado a essa busca incansável pela “fama online” seja reduzido. Não é possível que empresas e publicitários não percebam que não há nada a ganhar patrocinando um frenético postador de besteirol.

Quando a perspectiva de ganhar dinheiro jogando lixo numa timeline for afastada, veremos o afastamento do besteirol de resultado e a volta do besteirol arte. Basta que a coisa deixe de ser vista como uma “profissão” para que parte do problema se resolva no âmbito das redes sociais.

Quanto aos blogs e portais, não acredito numa mudança de paradigma. Não a curto nem a médio prazo. Não há qualquer perspectiva de ruptura com o modelo que força a produção em quantidade ao ponto de sacrifricar a qualidade.

Alguns bons e velhos sites resistem a essa lógica e são ótimos, mas quanto aos que vimos surgir recentemente e que já nasceram trabalhando nesse esquema, para esses não há muita esperança.

O problema com esses sites é de matemática financeira. A obrigação de produzir muito conteúdo, ditada pela lógica de funcionamento da web atual, impõe necessariamente um sacrifício na qualidade. Ninguém é capaz de produzir ou de pagar pela produção de tanto conteúdo mantendo a qualidade elevada. A receita gerada nunca pagaria de forma a compensar esse trabalho hercúleo.

É por isso que boa parte dos grandes sites é escrita por gente que mal sabe escrever ou que, muitas vezes, não domina o tema de que está tratando. Dentro da realidade atual, não há como ser diferente.

Ao mesmo tempo, um “exército de reserva” de gente disposta a ser mal paga para escrever mal sempre existirá, o que nos impede de ver, nessa “engrenagem”, uma falha que indique a aproximação de uma ruptura. O jeito é você escolher bem o que vai pro seu feed, porque ao navegar a esmo pela rede, você tem grandes chances de continuar navegando num rio de chorume.

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8 respostas a As mídias sociais e o chorume inesgotável

  1. Scheldon disse:

    Olha, você apontou só um aspecto do problema e ainda o menor e mais fácil de se proteger / bloquear, a quantidade de lixo produzida por universitários/"intelectuais"/amigos nas redes sociais e blogs é muito maior e pior.
    Contrariando o senso comum quanto maior a classe social e escolarisação do cidadão pior é a sua produção, uma rápida passada no twitter ou ate mesmo no observatório de impressa mostra isso. E os resultados vão desde do orgulho na desinformação até as formas mais absurdas de racismo.
    O problema esta na raiz da sociedade mesmo.

    • Ah, mas a proposta do texto é falar de internet, até porque eu não tenho uma resposta pra essa indagação de "o mundo está ficando mais burro"?

      Penso nisso com alguma frequência e realmente não sei responder. A questão é que estamos mais conectados do que nunca e, online, temos essa experiência de conviver com todas as formas de estupidez. Sei bem do que você está falando, sobre o orgulho da ignorância, sobre o racismo manifestado inclusive online. A questão é: a ignorância é maior ou apenas ficou mais visível?

      • Midgot disse:

        Olá =)…
        Não quero parecer elitista, não quero parecer discriminatório ou algo do tipo, mas acredito que a ignorância apenas ficou mais visível. A internet que por um lado é realmente boa para se encontrar conteúdo inteligente (ele ainda existe em larga escala, basta saber achar), mas chuto que essa massificação da internet, ainda mais aqui no Brasil, acabou incluindo ainda mais essas pessoas pessoas que repassavam as antigas correntes de e-mail, a diferença é que agora elas o fazem no facebook, em um blog ou até mesmo em um site, embora eu me orgulhe de ser brasileiro e tudo mais, eu devo admitir que fico bem chateado em ver pessoas criando uma cultura de idolatrar sua própria ignorância, não vejo isso apenas aqui na internet, mas na música, na televisão, nos jornais. A ideia de que o escroto faz mais sucesso com menos trabalho tem batido forte nos últimos anos, a internet eu vejo apenas como mais um dos meios em que esse tipo de cultura é disseminada, infelizmente boa parte das pessoas que tenho em meu próprio facebook tiveram o feed cancelado, justamente por se parecerem demais com aquela minha tia que só mandava spam de arquivos de powerpoint. Quase todos os sites de tirinhas de memes, eu tirei dos meu feeds, dada a repetição entre sites diferentes, a falta de criatividade, e essa necessidade de postar 40 tiras no mesmo dia (muitas vezes chupinhadas de outros sites do tipo), infelizmente as pessoas com essa cultura de adoração a ignorância adora isso, para quem faz o conteúdo é apenas mais um mercado para ganharem dinheiro fácil =/. Infelizmente…

        • E tem um agravante nesse assunto. Quando um sujeito faz sucesso com algo estúpido, esse "sucesso" rende para ele uma blindagem por parte dos aspirantes a celebridade, (de)formadores de opinião. Segundo eles, só critica quem tá com inveja. Aparentemente, pra eles é consensual a noção de que todos nós estamos ávidos por uma oportunidade de ganhar dinheiro pagando mico. E quem não conseguiu essa oportunidade, fica aqui criticando quem tá lá pagando seu mico e sendo bem pago pra isso.

          • Midgot disse:

            Sim, eu pelo menos procuro filtrar tudo o que eu não gosto de ver, o que me incomoda, é difícil, dá trabalho pra caramba. Acho que criticar já não faz mais tanto sentido, eles basicamente se tornam imunes a críticas, isso quando não agem da maneira como você citou. Infelizmente nossa cultura (assim como boa parte da cultura do mundo, pelo que tenho visto) está privilegiando o estúpido, o humor fácil, o mico que transformará uma pessoa em celebridade, e cada vez mais parecem ignorar o que é realmente inteligente, o humor irônico, bem construído (que como gênio máximo eu citaria George Carlin, que não te faz rir por palhaçadas, mas sim pela construção de um raciocínio foda) e por pessoas que realmente merecem ser reconhecidas por feitos importantes. Eu não julgo quem consome este chorume, desisti de tentar mostrar coisas bacanas e inteligentes a alguns conhecidos, hoje apenas ignoro. Que também me ajuda a evitar atritos =)

  2. Nessa lógica da estupidez, tb me preocupa o jornalismo deficiente, que vive ajudando a distorcer a comunicação e atrapalhar entusiasticamente o pensamento questionador e construtivo. É quando você se depara com uma matéria de alguns dias atrás que diz: "ator gera polêmica ao chamar editores de revistas de nazistas em programa da Globo".

    Ninguém foi chamado de nazista. Essa frequencia de notícias teatrais e apelativas é desgastante. E elas continuam. Continuam precisando aparecer.

    • Muitas vezes a droga do título é chamativo dessa maneira e o próprio texto já revela que "não foi bem assim". É uma técnica debilóide de atrair cliques que você só espera ver usada em blogs de quinta, mas estão lá a pleno vapor nos grandes portais…

      Como diz um amigo de tuiter "jornalismo vai com deus".

  3. culturaqualidade disse:

    Indo mais longe do que os comentários e as opiniões anteriores. Eu acho que isto é uma migalha no oceano. O real problema é que hoje há uma indústria que pretende destruir toda a cultura ou trabalho informativo de qualidade, porque sabe-se já desde a história que a cultura e a informação é impeditiva da manipulações dos povos e por isso para não a proíbirem porque isso era considerado uma ditadura, então promovo-se o que não tem qualquer tipo de qualidade (que é uma forma de destruir a cultura). Eu nesta questão sou bastante pessimista. Pensem só um bocado, que é que este sistema de promover o jornalismo de fraca qualidade (os grandes grupos informativos). E porque razão haveriam de eles criar um tal sistema de promoção (porque na verdade alguém teve de o criar) que há partida não teriam benefícios nenhuns? É bom pensarmos nesta e noutras questões semelhantes, porque afinal chegamos à conclusão, que na realidade somos todos "burlados todos os dias na cultura e na informação" vende-nos toda de pior qualidade. Por exemplo: Na música porquê que se promove os melhores vídeoclips de música em vez das melhores músicas?. Eu podia dar um sem número de exemplos, mas se pensarem na realidade de hoje, chegam depressa a muitas perguntas e respostas, e realmente ficam chocados com a mentira (isto quer dizer a promoção de quem não tem valor) que nos é vendida a toda a hora, quer seja pelas redes sociais, rádios, televisões, jornais, ….

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