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fuck the vip

A internet, principalmente nessa fase de web 2.0, de apogeu das redes sociais, de aumento da produção de conteúdo por parte do usuário, acabou se tornando um completo laboratório de observação do comportamento humano. Enquanto no mundo físico todos estão separados, uns em condomínios fechados em bairros nobres, outros em favelas, online se tem um encontro muito mais frequente de todos com todos. Isso nos possibilita observar com mais nitidez os preconceitos e idiossincrasias presentes nos mais variados discursos, até porque a maioria se sente mais à vontade para falar asneiras na rede do que fora dela (não é mesmo, Mayara Petruso?).

Orkutização

Como primeira rede social a se popularizar no Brasil, o Orkut serviu de experiência, não só para que as pessoas soubessem o que querem e o que não querem numa rede social como também para que as diferenças começassem a emergir.

Nos primórdios, você precisava de um convite para ter uma conta no Orkut, o que serviu para conferir aos participantes aquela sensação de “sou VIP” que todo autêntico babaca gosta de ostentar. Depois o portão escancarou e aquela rede social passou a atrair todo tipo de gente, contemplando todo o pluralismo da brasilidade, para o bem e para o mal. Gostassem ou não, todos estavam ali na mesma rede e, devido a peculiaridades da organização do site, num contato mais íntimo do que o recomendável.

Claro, os choques começaram a surgir. O problema do Orkut, ainda hoje, é que ele parece um condomínio de edifícios onde todas as paredes são de vidro. O sistema não só possibilita como estimula a exposição excessiva, as pessoas entram no clima e depois vem aquela impressão de que algo está errado. Você se expõe demais, o vizinho se expõe demais e começam os problemas causados nessas situações em que cada um viu mais do que deveria ter visto.

Ademais, o Orkut, pela própria disposição dos conteúdos, pelo layout, e pela forma de funcionamento que obrigava as pessoas a visitarem os perfis uns dos outros para trocar mensagens, incentivava esse espírito “stalker” em cada usuário. O sujeito ia lá fuçar a vida alheia pra depois sair desgostoso do que viu.

No Facebook, assim como no Twitter, o fluxo de informações se dá sem que você precise ir ao perfil das pessoas. Dessa  forma, além de não ver tão de perto tudo o que cada usuário está exibindo, você acaba vendo apenas aquilo que as pessoas mandaram mais recentemente. Se um camaradinha seu, mesmo aquele com sobrenome de pedigree, posta alguma babaquice, não apenas ela pode passar batida como, se ela for vista, daqui a pouco ela sumirá da timeline e parecerá que nunca aconteceu.

Maldita inclusão digital

O que há por trás de uma declaração infeliz e preconceituosa como “maldita inclusão digital”? Simples, um pensamento mesquinho que atrela automaticamente o mau comportamento numa dada rede social ao suposto nível de renda dos seus freqüentadores. Esse tipo de argumento vem freqüentemente à tona quando se fala do Orkut, contrastando-o com as redes sociais do momento, como o Twitter e o Facebook. De acordo com esse pensamento, o incômodo causado pela frequente vergonha alheia que sentíamos no Orkut, ao sermos expostos ao conteúdo vexatório postado por certos usuários, era atribuído automaticamente a uma invasão daquela rede pela população de baixa renda. “Maldita inclusão digital”.

No entanto, não existe nas novas redes, no Twitter e no Facebook, qualquer seletividade socio-econômica que tenha retirado os podres do seu campo de visão e tornado tudo mais agradável, seu fresco fascistinha. O que existe nelas é uma seletividade do conteúdo feita por você mesmo, que só vai ter na sua timeline aquilo que é postado pelos seus pares e por tempo limitado. E se você prestar bem atenção, os seus “mais chegados” não estão assim produzindo conteúdo tão interessante como deveriam estar, tendo em vista que pertencem aos setores da sociedade de onde só sai coisa boa, gente que frequentou boas escolas não é mesmo? Sempre acho engraçado o “frequentou” porque a maioria apenas frequenta mesmo, depois sai fazendo pose de dotô.

O que o elitismo, principalmente na sua mesquinha versão tupiniquim, é incapaz de computar é que o usuário inconveniente de uma  dada rede não é necessariamente aquele pertencente às classes C, D, E, alpha, beta ou gama. Sim, eu uso a esmo mesmo porque não considero serem merecedoras de qualquer crédito analises de sociedade que atribuam letrinhas a classes sociais. Isso é viadagem de marketeiro e não tem valor sociológico.

Ademais, o que passa na cabeça de um alucinado que acredita ser merecedor de estar online, enquanto outros não? Qual o critério para determinar quem merece estar online? Tem que produzir bom conteúdo, é isso? Dê uma olhada na sua timeline do Twitter e tente encontrar a razão pela qual a sua futilidade é melhor que a futilidade do outro.

Todo idiota terá voz

Voltando a falar “sério”, o usuário que causa desconforto nas redes sociais é o burro com iniciativa, o idiota que fala ao mundo e ele está por aí, em toda parte, em todas as redes. Alguns dizem tê-lo visto até aqui nesse blog, mas eu nunca vi. Ademais, esse asno pode pertencer a qualquer classe e se manifestar em qualquer rede social. No Twitter, no Facebook, o burro falador está se manifestando mais do que nunca, postando todo tipo de conteúdo. No Orkut ele apenas colocava suas fotos de de mau gosto, com aquele tipo de super exposição de envergonhar até uma Paris Hilton. Além de se manifestar nas comunidades com aquele patamar de escrotice de de fazer frente a um Rafinha Bastos, o rapaz que quer abraçar os estupradores.

A diferença do Twitter e do Facebook é, tão somente, que os conteúdos são expostos de forma selecionada. Assim você não vê a foto do “vida loka” da favela que acha bonito ser aspirante a marginal e nem tampouco a farta imbecilidade que o adolescente das classes abastadas também é capaz de produzir.

E agora, nós vamos censurar o burro? Não! Deixa ele falar. A internet é assim democrática e nela você pode simplesmente escolher seguir ou não os burros, ou pelo menos quais idiotas quer seguir.

Quer dizer, pra fechar: maldita inclusão social é a cabeça do… Reinaldo Azevedo.

 

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3 respostas a Redes sociais, inclusão digital e intolerância elitista

  1. @nowadzki disse:

    Ótimo post. Escreves mt bem!

    Como um dos maiores exemplos de vergonha alheia nem cito o Orkut mais … cito os Vlogs … O que que é aquela WEB DIVA TULLA LUANA ? Saudades fortes da net do final dos 90 e no máx até idos de 2004 …

  2. Pingback: Amanda Regis toma o lugar de Mayara Petruso como a musa da estupidez nas interwebs

  3. Pingback: ICQzação do MSN Messenger

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