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androidfailwhale

Esse é um tema recorrente aqui no blog, mas que vale à pena retomá-lo, conforme observamos o amadurecimento da plataforma e sua relação com os vários fabricantes de dispositivos e também com as comunidades de desenvolvedores. A verdade é que a maior parte das expectativas criadas quando o Android foi anunciado como um sistema operacional móvel de código aberto foram frustradas e esse texto trata de entender as razões dessa decepção.

Assim como outros projetos open source bem-sucedidos comercialmente, o que o Android tem de aberto favorece quase que exclusivamente aos fabricantes, deixando na mão desenvolvedores e heavy users que gostariam de mais autonomia sobre o sistema, além de desperdiçar o grande potencial das comunidades de desenvolvedores voluntários.

É preciso entender que o código do Android é aberto, livre, e ele está disponível à Samsung, à Motorola e a outras marcas para que o sistema seja moldado de acordo com a visão dessas empresas e adaptado ao hardware dos dispositivos lançados no mercado.

Sim, além de aberto aos fabricantes, o código está lá à disposição de qualquer um. O problema é que, nessa adaptação do software aos seus equipamentos, as empresas empregam drivers de dispositivo com códigos fechados e algumas até mesmo travam os bootloaders desses equipamentos, dificultando sobremaneira o trabalho das comunidades de desenvolvedores.

Como consequência, o trabalho de desenvolvimento de custom ROMs, onde reside a máxima autonomia do desenvolvedor e dos heavy users sobre o sistema, acaba muitíssimo dificultado ou até inviabilizado. As dificuldades vão sendo agravadas com a crescente complexidade do hardware dos dispositivos, que contam com cada vez mais recursos a serem implementados, muitas vezes mediante a implementação de “hacks” nos drivers fechados.

Por força dessa dificuldade crescente, o time de desenvolvimento da MIUI ROM para o Galaxy S II abandonou de vez a proposta de construir o sistema a partir do código puro colhido do AOSP (Android Open Source Project) e trabalha tendo por base uma ROM da Samsung, focando basicamente na substituição da interface de usuário. Enquanto isso, os times que se mantêm fieis à proposta de trabalhar sobre o AOSP encontram dificuldades para entregar uma ROM que faça funcionar todos os recursos de hardware do aparelho.

No cenário atual, com o Android 4.1 (Jelly Bean) lançado e faltando duas semanas para a liberação do código do novo sistema via AOSP, o que dará início ao desenvolvimento do CyanogenMOD 10, o CM9 ainda perde para o CM7 em número de instalações.

A versão com o ICS (CyanogenMOD 9) está ainda como “release candidate” e, mesmo no Galaxy S II, o Android com maior número de instalações, ainda não oferece suporte a todo o hardware do dispositivo, faltando implementar a saída HDMI e com alguns problemas custando a serem resolvidos.

A perspectiva é que com o aumento da complexidade do hardware e também do próprio sistema operacional, que ganha mais recursos a cada nova versão, isso somado aos obstáculos oferecidos pelos fabricantes, o trabalho em uma custom ROM como o CyanogenMOD se torne cada vez mais difícil, podendo ser até mesmo inviabilizado.

Ao mesmo tempo em que dificultam, impondo dificuldades ou apenas negando suporte, o trabalho dos desenvolvedores independentes, os fabricantes parecem não ouvir bem as demandas da base de usuários da plataforma. Os sistemas vêm cada vez mais cheios de bloatware e de firulas inúteis que apenas comem recursos de hardware, não obstante o forte consenso de preferência por um Android mais simples, mais aproximado do que se vê nos Nexus. Quanto à política de updates, então, dessa nem se precisa falar.

Dessa maneira, com os projetos baseados no AOSP enfrentando dificuldades cada vez maiores e com os fabricantes fazendo ouvido de mercador para as demandas da comunidade, o Android frustra as expectativas de quem viu com grande entusiasmo o surgimento de um sistema móvel de código aberto. E assim grandes comunidades com gente capacitada e disposta a desenvolver para os dispositivos, provendo inclusive os updates que os fabricantes costumam negar, têm o seu excelente potencial desperdiçado.

Talvez aquela utopia de um sistema mobile sobre o qual a comunidade tenha maior capacidade de participação se cumpra com o Ubuntu Phone, que a Canonical promete para 2014. A depender da Google, toda a liberdade proporcionada pelo Android como projeto Open Source continuará apenas nas mãos dos fabricantes, pois a empresa não sinaliza qualquer intensão de intervir nesse quadro.

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Uma resposta a Por que o Android frustra expectativas como sistema open source?

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